Pesquisa da UCPel analisa o impacto da depressão em gestantes

Gestantes deprimidas ou com risco de desenvolver depressão apresentam melhora significativa quando passam por intervenções psicossociais, reduzindo, inclusive, os índices de depressão pós-parto. A afirmação faz parte dos resultados preliminares do projeto Gravidez Cuidada, Bebê Saudável, desenvolvido pelo Programa de Pós-graduação em Saúde e Comportamento da Universidade Católica de Pelotas (PPGSC/UCPel).
Financiado pela Fundação Bill & Melinda Gattes, Ministério da Saúde e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o estudo versa sobre transtornos neuropsiquiátricos maternos no ciclo de gravidez e pós-parto. A partir da prevenção e tratamento, os pesquisadores buscam evitar e/ou reduzir impactos futuros. “Estudos mostram que mães deprimidas têm mais probabilidade de gerar filhos com alterações no desenvolvimento”, explica o coordenador do projeto, professor Ricardo Pinheiro. 
Esse impacto foi verificado no decorrer da pesquisa, iniciada em junho de 2016. Em dois anos, 1064 gestantes foram analisadas. Destas, cerca de 120 estavam com depressão e mais de 260 apresentavam risco. Para observar a influência do estado emocional das gestantes nos bebês, Pinheiro explica que essas mulheres (deprimidas ou em risco) foram divididas em dois grupos: as que aceitaram passar pela intervenção psicossocial e as que permaneceram no estudo, mas recusaram participar dos encontros. O restante também permaneceu na pesquisa e foi classificado como grupo de controle.
Na primeira avaliação no pós-parto, 90 dias depois, já foi possível identificar diferenças significativas entre os grupos. As mães deprimidas que não se submeteram ao acompanhamento indicado pelo estudo geraram crianças com desenvolvimento motor significativamente menor, quando comparadas a outras crianças da mesma idade. Situação diferente daquelas que aceitaram participar dos encontros psicossociais. Seus bebês não apresentaram alterações. 
Os resultados obtidos até o momento indicaram ainda que as intervenções também foram determinantes na vida das mães. As que estavam suscetíveis a desenvolver depressão, quando avaliadas dois meses depois – duração do tratamento indicado – estavam com prevalência semelhante ao grupo de controle, 4% a 5%. “Isso mostra que conseguimos impedir que as de risco avançassem para uma depressão pós-parto”, afirma o professor. 
Sobre as intervenções, Pinheiro destaca que o período em que são executadas é mais importante do que o tempo de efetividade, isso porque, de acordo com inúmeros estudos, algumas condições perinatais – período entre a 22ª semana de gestação e o 7º dia após o nascimento – podem gerar conseqüências futuras e determinantes na vida da criança e do restante da família. “Pode ser que em quatro anos, por exemplo, seja necessário intervir novamente, mas o que importa é proteger nessa fase crucial do desenvolvimento infantil, visando um grande efeito no futuro”.
Nova etapa
A relevância dos resultados, no âmbito de saúde pública, alertou pesquisadores e órgãos públicos e privados para o seguimento da pesquisa. De acordo com Pinheiro, responsável pelos primeiros estudos no país relacionando depressão pós-parto e desenvolvimento da criança, em 90 dias é possível detectar algumas alterações no desenvolvimento, mas ainda assim é um tempo precoce. A partir dessa constatação, uma proposta para avaliar os bebês após esse período foi elaborada e apresentada às entidades financiadoras.
Dos nove projetos aprovados em 2016, três receberam aporte para ter continuidade e o Gravidez Cuidada, Bebê Saudável foi um deles. Chamada de quarta etapa, a continuidade do projeto já começou a ser desenvolvida. A previsão é de que ainda na fase piloto 30 crianças, com idade entre 15 e 18 meses, sejam acompanhadas. Além de avaliações para complementar o estudo, serão realizadas intervenções para estimulação da infância.
Na visão do coordenador, um dos fatores centrais para que o projeto tenha sido repetidamente financiado é a aplicabilidade. A partir de estudos anteriores foi detectado que a rede pública não dispõe de locais que recebam crianças com déficit, então a proposta é intervir visando o desenvolvimento motor, cognitivo e de linguagem. A previsão é que 600 crianças sejam impactadas. 
Além de avaliarem os bebês, a equipe, composta por agentes de saúde e estudantes de psicologia, irão capacitar famílias acompanhadas pelas Unidades Básicas de Saúde (UBS’s) administradas pela UCPel. A ideia é que a estimulação do desenvolvimento tenha continuidade e seja realizada, posteriormente, pelos próprios familiares. 

Redação: Manuelle Motta

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